Anitta mergulha na espiritualidade em “Equilibrivm”, acerta nas raízes, mas tropeça ao mirar o exterior

A cantora Anitta apresenta em Equilibrivm um de seus projetos mais ousados e pessoais. Lançado nesta semana, o disco aposta em temas ligados à fé, espiritualidade e identidade cultural brasileira — mas também revela os desafios da artista ao tentar equilibrar autenticidade e mercado internacional.

Com nota 7,5, o álbum se destaca pela proposta de explorar o sincretismo religioso, trazendo referências ao candomblé, além de elementos de outras crenças e tradições. A sonoridade mistura samba, funk, reggae e pop, criando uma base musical acessível, mas com forte identidade brasileira.

Essa abordagem não surge do nada: a obra dialoga com uma longa tradição da música nacional, passando por nomes como Clara Nunes e Os Tincoãs, até chegar a artistas contemporâneos como MC Tha e Majur.

Ponto alto nas raízes brasileiras

O início do álbum é considerado um dos pontos mais fortes. Com produção refinada e participações estratégicas, Anitta constrói um som envolvente. O destaque vai para “Mandinga”, parceria com Marina Sena, que dialoga com o clássico Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Outro momento marcante é “Meia Noite”, onde a mistura de batidas de funk com elementos de cantos religiosos — o chamado “macumbeats” — cria uma atmosfera intensa e hipnótica.

Quebra de ritmo ao mirar o mercado internacional

No entanto, a consistência do disco sofre na segunda metade. Ao incluir faixas em outros idiomas, como “Varias Quejas” e “So Much Love”, o álbum perde parte de sua identidade e coesão.

As músicas em espanhol e inglês são apontadas como menos inspiradas, com arranjos que não aproveitam todo o potencial das referências originais. Em especial, a adaptação de “Varias Quejas” deixa de lado a força percussiva associada ao Olodum, elemento que poderia enriquecer ainda mais o projeto.

Entre autenticidade e estratégia global

A irregularidade reflete um dilema recorrente na carreira internacional de Anitta: como dialogar com o mercado global sem abrir mão da própria identidade. Mesmo assim, há acertos nesse caminho, como em “Choka Choka”, parceria com Shakira, que equilibra idiomas e estilos de forma mais natural.

No geral, “Equilibrivm” se consolida como o trabalho mais interessante da artista até aqui. Ainda que não seja totalmente coeso, o álbum mostra que a força de Anitta está justamente quando ela olha para suas origens e traduz sua cultura com autenticidade.

Entre altos e baixos, o disco reforça que, quando a artista aposta na própria essência, o resultado é mais potente — e mais verdadeiro.