O principal antiviral utilizado contra a varíola e outros vírus do gênero *Orthopoxvirus* — grupo ao qual pertence o vírus da mpox — vinha sendo adotado de forma empírica no tratamento da doença.
Dois achados recentes recolocaram a mpox no centro da atenção sanitária internacional. Em fevereiro de 2026, a Organização Mundial da Saúde informou a detecção de um vírus recombinante inédito, formado por elementos genéticos dos clados Ib e IIb do mpox vírus, agente da mesma família da varíola. Os dois casos confirmados até agora foram identificados no Reino Unido e na Índia, ambos com histórico de viagem internacional, o que levou a OMS a avaliar que essa variante provavelmente já circula de forma mais ampla do que os registros atuais conseguem mostrar.
O que torna essa nova cepa especialmente preocupante é a dificuldade de identificação pelos testes convencionais. Nos casos analisados, os exames de PCR usados para diferenciar clados apontaram inicialmente classificações já conhecidas, e só o sequenciamento genômico completo revelou que se tratava de um recombinante. Por isso, a OMS alertou que a vigilância laboratorial precisará incorporar de forma mais sistemática o sequenciamento, já que os testes de diferenciação por PCR, isoladamente, podem não detectar esse tipo de variante.
Ao mesmo tempo, o principal antiviral usado de forma empírica contra a mpox perdeu força como aposta terapêutica de rotina. Publicado no New England Journal of Medicine, o ensaio clínico STOMP mostrou que o tecovirimat não reduziu o tempo de resolução clínica, não diminuiu a dor e não acelerou a eliminação viral em adultos com mpox por clado II. No estudo, 344 participantes tinham diagnóstico laboratorial confirmado, e os desfechos foram praticamente iguais entre o grupo que recebeu o medicamento e o que recebeu placebo.
O resultado se soma ao estudo PALM007, também publicado no New England Journal of Medicine, que avaliou pacientes com mpox por clado I na República Democrática do Congo. Nesse ensaio, o tecovirimat também não reduziu o tempo para resolução das lesões nem mostrou vantagem relevante sobre o placebo. Em atualização mais recente, o CDC passou a resumir os dados disponíveis dizendo que os dois estudos randomizados indicam que o antiviral foi seguro, mas não encurtou o tempo de melhora das lesões; a própria agência ressalta que o papel do medicamento em pacientes com imunossupressão grave ainda não está definido.
Esse é justamente o ponto mais sensível do debate atual: os dados negativos enfraquecem o uso rotineiro do tecovirimat na maioria dos adultos sem imunossupressão importante, mas ainda deixam em aberto a principal lacuna clínica, que é o tratamento de grupos mais vulneráveis, como pessoas com imunocomprometimento grave. Assim, o cenário combina dois desafios ao mesmo tempo: uma variante nova, de detecção mais difícil, e menos evidência de benefício para o antiviral que vinha sendo usado como principal opção terapêutica.
No Brasil, a resposta oficial já vem reforçando diagnóstico e vigilância genômica. O Ministério da Saúde informou em janeiro de 2025 que ampliaria a aquisição de testes e destacou o sequenciamento como ferramenta central para acompanhar a evolução do vírus. Em março de 2025, São Paulo confirmou o primeiro caso de clado Ib no estado, sinalizando que o país também passou a lidar com uma linhagem associada a maior atenção epidemiológica.
Na prevenção, a principal ferramenta continua sendo a vacinação estratégica de grupos prioritários. A Anvisa renovou em 2025 a dispensa excepcional de registro da vacina Jynneos para uso pelo Ministério da Saúde no Programa Nacional de Imunizações e em estudos clínicos, com foco em pessoas de maior risco e profissionais de laboratório que trabalham diretamente com orthopoxvírus. Além disso, o Ministério da Saúde mantém a orientação de evitar contato direto com lesões, materiais contaminados e animais silvestres infectados, além de procurar atendimento diante de sintomas compatíveis.



