Derrubada de Mohammad Mossadegh em operação secreta da CIA e do MI6 encerrou uma experiência democrática, fortaleceu a monarquia do xá e lançou as bases da ruptura histórica entre Teerã e os Estados Unidos
A história recente do Irã não pode ser compreendida sem voltar a 19 de agosto de 1953, data em que um golpe de Estado articulado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente. Conhecido no país como 28 Mordad, o episódio é visto pelos iranianos como um ponto de ruptura nacional — o momento em que uma tentativa de consolidar a democracia foi interrompida por interesses estrangeiros, com consequências que atravessaram gerações.
Mais de 70 anos depois, o golpe segue sendo lembrado como um dos acontecimentos mais decisivos da história moderna do Oriente Médio. Não apenas porque recolocou o Irã sob um regime autoritário liderado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, mas porque também alimentou um sentimento duradouro de desconfiança em relação ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos.
A disputa pelo petróleo e o medo do comunismo
Na década de 1950, o Irã ocupava uma posição estratégica no cenário internacional. Em plena Guerra Fria, o país era visto pelo Ocidente como peça-chave para conter a influência da União Soviética na região do Golfo Pérsico. Ao mesmo tempo, detinha enormes reservas de petróleo, exploradas sob domínio da Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo, empresa britânica que mais tarde daria origem à atual BP.
Foi justamente contra essa dependência externa que Mossadegh construiu sua trajetória política. Ao assumir o cargo de primeiro-ministro, em 1951, ele transformou a nacionalização do petróleo iraniano em sua principal bandeira. A proposta tinha forte apoio popular e simbolizava, para muitos iranianos, a recuperação da soberania nacional. Para os britânicos, porém, representava uma ameaça direta a um de seus ativos mais valiosos. Já os americanos passaram a enxergar o líder iraniano como um possível fator de instabilidade, temendo que a crise interna abrisse espaço para o avanço comunista.
Operação Ajax: a engenharia do golpe
Décadas depois, documentos oficiais desclassificados confirmaram aquilo que durante anos foi tratado como suspeita ou denúncia. Em 2013, a CIA reconheceu formalmente seu envolvimento na operação que levou à queda de Mossadegh. Batizada de Operação Ajax, a ação foi planejada em conjunto com o serviço secreto britânico, o MI6, e executada como uma estratégia de política externa aprovada nos mais altos escalões de Washington e Londres.
A missão foi liderada por Kermit Roosevelt, agente da CIA e neto do ex-presidente americano Theodore Roosevelt. Ele desembarcou no Irã para coordenar uma ampla rede de articulação com militares, políticos, setores religiosos e grupos de oposição. A estratégia não se limitou a reuniões secretas ou pressões institucionais: envolveu também campanhas de propaganda, manipulação política, guerra psicológica e a promoção de protestos e tumultos nas ruas, com o objetivo de criar um ambiente de caos e enfraquecer o governo.
Em meio à instabilidade, o general Fazlollah Zahedi, apoiado pelos conspiradores, assumiu protagonismo e liderou a ofensiva final que retirou Mossadegh do poder. O primeiro-ministro foi preso, julgado por traição e condenado. Após cumprir pena, passou o restante da vida em prisão domiciliar, até morrer em 1967.
O retorno do xá e a escalada autoritária
Com a queda de Mossadegh, o xá Mohammad Reza Pahlavi retornou fortalecido e passou a concentrar poder de forma cada vez mais rígida. O Irã entrou em uma longa fase de autoritarismo, marcada por repressão, censura, perseguição a opositores e graves violações de direitos humanos.
Nesse período, foi consolidada a atuação da Savak, a polícia secreta do regime, criada com apoio da CIA e notória por métodos brutais de vigilância e repressão. Embora o país tenha vivido crescimento econômico em alguns setores e avanços em infraestrutura e modernização, esse processo ocorreu ao lado de forte desigualdade social e fechamento político.
Para muitos historiadores e estudiosos, o golpe de 1953 destruiu uma oportunidade rara de evolução institucional no Irã. Em vez de uma monarquia constitucional com espaço para participação democrática, o país mergulhou em um modelo centralizador que acumulou tensões por mais de duas décadas.
Da revolução à ruptura com os Estados Unidos
O desgaste do regime do xá explodiu em 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou a monarquia e instaurou uma república teocrática liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. A nova ordem política foi construída em oposição ao passado pró-Ocidente do xá e incorporou de forma profunda a memória do golpe de 1953 como prova da interferência estrangeira nos destinos do país.
A partir daí, a relação entre Irã e Estados Unidos entrou em colapso. Ainda em 1979, a invasão da embaixada americana em Teerã e o sequestro de diplomatas por 444 dias consolidaram uma hostilidade que persiste até hoje. Em resposta, Washington rompeu relações diplomáticas com o Irã e iniciou uma política de sanções econômicas que, ao longo das décadas, afetou duramente a economia iraniana.
Além disso, os Estados Unidos apoiaram o Iraque durante a guerra travada contra o Irã nos anos 1980, um conflito devastador que deixou centenas de milhares de mortos e aprofundou ainda mais o sentimento antiamericano entre os iranianos.
Um passado que continua moldando o presente
O golpe contra Mossadegh é lembrado até hoje no Irã não apenas como uma intervenção estrangeira, mas como o evento que interrompeu uma possível trajetória democrática e abriu caminho para um ciclo de autoritarismo, revolução, isolamento internacional e tensão permanente com o Ocidente.
Mais do que um capítulo encerrado, o 28 Mordad permanece vivo no debate político e na memória coletiva iraniana. Para muitos analistas, ele ajuda a explicar por que o país ainda vê com tanta desconfiança qualquer ação externa sobre seu território, sua política e seus recursos estratégicos.
Ao derrubar Mossadegh, Estados Unidos e Reino Unido não apenas mudaram o comando de um governo. Eles alteraram profundamente o rumo de uma nação inteira — e ajudaram a desenhar uma das rivalidades mais duradouras e explosivas da política internacional contemporânea.



